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ARTIGOS
Os nomes do crime
Publicado em 30 de abril de 2009 - Por Assessoria de Imprensa
CARLOS BEZERRA JR.
É difícil engolir a náusea e encarar com frieza as cenas da infância ameaçada. Tente compreender relatos como o das crianças de Catanduva, que contaram terem sido obrigadas a ver um homem de 46 anos dançar nu músicas da banda Calypso antes de violentá-las. Como diagnosticar esse desvio de sexualidade? Uma pessoa adulta buscar se satisfazer sexualmente com crianças e adolescentes contraria tudo aquilo que pensamos ser adequado para um ser humano em desenvolvimento.

Tal pessoa pode ser pedófila, abusadora sexual, louca ou tudo isso junto. É preciso deixar claro que nem todos que abusam de crianças são pedófilos. Pedofilia designa a compulsão sexual específica e exclusiva por crianças. Porém, mais importante que isso, é entender os mecanismos pelos quais aquelas crianças se tornaram presa fácil. E essa compreensão é condição fundamental para criar leis e programas que protejam a infância.

Em Brasília e em São Paulo, surgem movimentos para unir esforços no combate à violência contra as crianças, mobilizações saudáveis, bem-vindas. Um desses movimentos é a Comissão Parlamentar de Inquérito da Câmara Municipal de São Paulo, da qual sou relator. “Todos contra a pedofilia” – é o que entoam os parlamentares como grito de guerra. Quem dera a geografia do território da infância ameaçada fosse tão simples. Quem dera se limitasse à pedofilia.

A experiência dos técnicos que trabalham no Centro de Referencia às Vítimas de Violência do Instituto Sedes Sapientiae levou à construção de sete situações de risco às crianças: abuso sexual, tendo os pedófilos como um dos prováveis culpados, o abuso sexual intrafamiliar ou incestuoso, o tráfico para fins de exploração sexual, a exploração sexual, a pornografia infanto-juvenil e o turismo sexual. De todas, no entanto, a pedofilia é a que chama mais a atenção da mídia. Porém, isso não significa que seja este o fenômeno que mais vitima nossas crianças. Segundo levantamento do Disque-Denúncia nacional, de maio de 2003 a fevereiro deste ano foram registradas 22.958 notificações de abuso sexual contra 693 de pornografia na Internet – onde se concentram as redes de pedofilia.

Por esse motivo, cerca de 130 entidades, inclusive o Unicef, que militam a favor da proteção da infância protocolaram manifesto pedindo que a CPI da “Pedofilia” incluísse em seu nome também o Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-Juvenil, por entender que é preciso ir muito além da punição dos pedófilos, por entender que não é possível ignorar as milhares de crianças violentadas e deixar sem punição outros milhares de criminosos que vendem meninos e meninas para turismo sexual.

O fato é que a integridade psicológica das crianças não vem sendo respeitada nem nas reportagens publicadas tampouco nos inquéritos que investigam os casos de violência. Assim, da mesma forma como algumas vítimas de Catanduva tiveram de reviver o abuso a que foram submetidas para contar histórias que vendem jornal aos ávidos repórteres que lotaram a cidade do interior do Estado. Infelizmente, nessas comissões de São Paulo e de Brasília, a audiência que a pedofilia mobiliza acaba confundindo os objetivos de quem está, ou deveria estar, disposto a fazer com que essas crianças simplesmente parassem de sofrer, parassem de ser objetos na mão dos adultos, sejam pedófilos ou não.

CARLOS BEZERRA JR. é médico ginecologista e obstetra, vereador, líder do PSDB na Câmara Municipal de São Paulo, relator da CPI “da Pedofilia” e do Enfrentamento à Violência Sexual Infanto-Juvenil.

"PROMOVER OS DIREITOS HUMANOS É UMA LUTA DIÁRIA... ESCRAVIZAR PESSOAS E VIOLENTAR JOVENS SÃO OFENSAS À DIGNIDADE DE TODOS NÓS CIDADÃOS. SEMPRE APOIAREI PROJETOS E LEIS QUE VALORIZEM A VIDA"
BRUNA FERRACCIN
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